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A importância das suas referências

Você já foi conduzido a um estado de catarse causado por uma influência externa? Pode ter sido uma música, um livro, um filme, um quadro, algo que viu ou ouviu e que fez todo o sentido do mundo. Naquele momento, aquela obra cultural ressoou dentro de você.

A importância das suas referências

Se para criarmos coisas novas precisamos de conteúdo, isso significa que nossas referências são fundamentais. De alguma forma, nós somos como uma caixa de ressonância, ecoando nossas referências em quase tudo que fazemos. Elas são uma parte importante da nossa formação e alteram a forma como entendemos o mundo.

Recentemente, em uma aula de oficina de escrita criativa, precisei fazer um exercício para revisitar minhas influências. Ele serve para avaliarmos o que ainda faz sentido hoje e para descobrirmos se temos voz própria ou se só estamos reproduzindo algo que nos marcou.

Quer entender melhor? Continue lendo.

A importância das referências

A cultura é como um organismo vivo, ela é uma manifestação de sentimentos que inventamos para interpretar a vida. Estamos, o tempo todo, criando significado para nossas experiências. Nossas referências nos ajudam nessa tarefa

Darcy Ribeiro defendia que “cultura é a herança social de uma comunidade humana“. Dessa forma, ela está ligada a um conjunto de saberes, algo que passamos de geração em geração, que também moldamos e construímos com o passar do tempo. Ou seja, está ligada a nossas referências.

Nesse sentido, Isaque Crisculo discute a importância dessas influências para o processo criativo (leia aqui). Segundo ele, precisamos saber olhar ao nosso redor e encontrar alimentos para criar. Isso porque o processo criativo é um fenômeno cultural.

Mas tem um problema: normalmente, não gostamos de nos expor a diferentes ambientes! E isso nos leva a uma grande possibilidade de não sair da zona de conforto (até quando falamos de parâmetros referenciais) e de aceitar as experiências que nos são dadas como verdadeiras.

O estranhamento leva à reflexão

Em julho de 2020, pouco tempo depois do início da quarentena, li o famoso calhamaço “A revolta de Atlas”, de Ayn Rand (falei sobre o livro aqui). Além de ser uma distopia, o livro é um dos maiores defensores do pensamento americano.

Naquela época, eu estava passando por um grande processo de reavaliação das minhas prioridades. Ainda estávamos no começo da quarentena e muitas coisas estavam mudando. Só para você ter uma ideia mais clara da situação, eu estava mudando de casa, de emprego e de vida — como muitas pessoas.

Diante disso, você consegue imaginar o impacto que é ler uma obra que diz que o egoísmo racional se sobrepõe ao altruísmo? Um manifesto de mil páginas dizendo que ninguém precisa carregar o mundo nas costas, mas você precisa ser responsável por si mesmo?

Tudo bem que eu até concordo com muitos pontos apresentados pela autora, mas essa leitura foi como levar um soco no meio do estômago em um dia de cólicas menstruais. Ou seja, foi doloroso! Um mar de sofrimento, dúvida, angústia e, claro, ponderação.

Aquilo que arranha é o que nos marca

Outro dia, uma pessoa me disse que “aquilo que você menos gostou é o que o marcou de alguma forma”, e por isso precisa ser revisitado.

Aquilo que nos arranha

Quando gostamos muito de um filme, por exemplo, não o questionamos. Talvez ele tenha atingido um nível tão profundo de conexão com nossos medos, nossos valores ou nossas crenças, que faz com que a gente se sinta compreendido. 

Não me entenda mal, isso é ótimo. Eu adoro quando acontece comigo! Mas a verdade é: você não vai questionar nada nessa situação. Você acabou de ganhar nota 10 por todas as coisas que acredita. Nesse caso, o que sobrou para ser reavaliado?

Agora, quando uma música diz tudo aquilo que você não quer ouvir… Pode até ser que você, realmente, nunca vá gostar daquela melodia, mas se você parar para repensar uma única crença que seja… ela cumpriu seu papel como arte.

É claro que isso não quer dizer que você vai mudar suas opiniões, de forma alguma. O ouro está na possibilidade de pensar a respeito de coisas que você julgava permanentes e naturais. Apenas isso. O que nos machuca, normalmente, gera pensamento crítico.

Nossa forma de interpretar o mundo está diretamente ligada a nossas referências culturais. Quais sentimentos criamos para interpretar a realidade? Por que eu acho graça de coisas que fazem os outros chorar? E por aí vai.

A árvore das referências

Agora que você entendeu melhor a importância das suas referências, vou propor um exercício. Não fui eu quem criei, na verdade aprendi há poucos dias em uma oficina da Escola de Escrita. Comece fazendo uma lista com as principais coisas que te marcaram: livros, filmes, novelas, séries, lugares, cheiros, pessoas famosas, poemas. Vamos montar a árvore das referências.

A árvore das referências

Será que você consegue escolher apenas três exemplos de cada? Parar para pensar nas coisas que nos impactaram, de alguma maneira, é um exercício inocente (à primeira vista) e muito profundo. Você precisa pensar no quê, como e por que.

Em seguida, avalie se esse lugar ainda serve para você, se faz sentido para a pessoa que você é hoje.

Não se engane. Nós não somos as mesmas pessoas que éramos ontem e, obviamente, não seremos as mesmas amanhã

Ressoar, criar, estar

A arte consegue nos impressionar e causar um impacto permanente em tudo o que acreditamos. Ressoar é quando algo soa com força, com intensidade e ecoa dentro (e fora) da gente, é isso que ela pode produzir.

Quando o exercício de descoberta das coisas que me influenciam, tive dificuldade. Ayn Rand é uma autora que mudou algumas das minhas convicções, mas será que eu tenho ela como uma influência para o que penso, sinto e ecoo? Será que ela está presente nas minhas criações? 

Penso que a importância dessa leitura na minha vida foi a estranheza que ela causou, foi o poder de me tirar de um lugar confortável e seguro para questionar minhas mais arraigadas convicções pessoais. Isso causa um impacto direto na maneira como passei a me expressar depois daquilo e, principalmente, permitiu um olhar mais questionador sobre quem eu sou e no que eu acredito.


Na verdade, essa é a importância das referências. Não tem problema ler um romance de super-heróis, gostar de comédias românticas ou só escutar funk. A arte também é lugar de relaxamento, um pouco de alienação voluntária não faz mal a ninguém. 

Apenas tente, de vez em quando, se colocar em posições difíceis, forçar questionamentos e reavaliações. Isso pode fazer com que você se conheça muito melhor e que crie coisas muito mais interessantes e originais.


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